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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Como uma ideia que existe na cabeça e não... NÃO SAI NEM COM REZA BRAVA!



Todo mundo já teve uma obsessão na vida. Obsessões não são saudáveis, mas todo mundo já teve vez ou outra aquela fixação por alguma coisa. Parece que o cérebro necessita desse alimento para que você sobreviva. Quanto eu tinha 8 anos, fiquei obcecada por uma Barbie Ginasta, eu só pensava na maldita Barbie dia e noite. Depois que ganhei a Barbie, passaram-se uns dias, depois daquela sensação surreal de ter conseguido, ela perdeu a graça, como se meu cérebro tivesse sido alimentado e agora não estivesse mais com fome, ao menos da Barbie. 
A gente cresce e as obsessões mudam. Para o ansioso, as obsessões são infinitas. Acaba uma, começa outra. É uma preocupação constante que martela na cabeça, seja com doença, seja com a família, o namorado(a), as finanças e mais uma infinidade de assuntos. A gente precisa cavucar até o fundo um mesmo assunto desgastado, até alimentar o cérebro obsessivo. 
E é assim que eu me sinto em relação às doenças. Eu preciso me alimentar disso, eu preciso pesquisar, eu preciso saber mais e ficar em paz, mesmo que essa paz dure poucos minutos e outras coisas impactantes surjam na minha mente. 
Só esse ano, já achei que tinha problema no olho (várias vezes, problemas diferentes), tava tendo AVC, câncer no lábio, no colo do útero, na mama e estava ficando careca. 

Em maio, meu lábio começou a rachar por conta do frio intenso que vinha fazendo. Mesmo após hidratação e diversos cosméticos diferentes, receitas caseiras e afins, o rachado continuava, meu lábio estava áspero. Fui buscar no Goolge, lógico, porque eu precisava me alimentar disso. "Lábio áspero". Nos resultados, achei câncer bucal, câncer labial, que poderia ocorrer por exposição ao Sol. Agora, vamos ver alguns fatores:
- Minha sala não tem janelas onde bata absolutamente nenhum Sol.
- Meus batons têm protetor solar.
- Estou com a vitamina D baixa, ou seja, falta Sol MESMO.

Mas quem disse que tudo isso fez sentido? Eu tinha um melanoma sim. Certeza que aquilo era um melanoma. Depois ainda li que a incidência havia aumentado no Brasil. PRONTO. "Mas predomina em homens acima de 50 anos e fumantes". Eu era um homem acima de 50 anos fumante. Tive um surto. 

Depois de ida ao dermatologista e ao dentista, descobri que era uma alergia, alergia ridícula. 

Meu último surto foi porque fui à ginecologista para ver se podia colocar DIU e ela achou uma ferida. COMO ASSIM FERIDA, tenho CÂNCER? Fiz um montão de exames. Se não tenho câncer, tenho alguma doença grave. Esperei UMA SEMANA os exames ficarem prontos. Isso pra mim é como uma tortura medieval, um castigo de Zeus, como Prometeu que tinha seu fígado devorado e regenerado todos os dias. Pesquisei tanta coisa, mais tanta coisa. Em português, inglês e espanhol. Nunca tinha feito colposcopia e, minha nossa, BIOPSIA? Acontece que a ginecologista não me explicou direito. Não era uma ferida, mas uma troca de tecido comum em quem usa anticoncepcional, que precisava de biopsia para ver se estava contaminada. Eu recebi o resultado e fiquei em paz. Por alguns segundos. Mas "e se", "e se"... E SE? Mas o exame tá exemplar, não tem nada. MAS E SE? É desesperador. Eu me pego pesquisando doenças raras, coisas inimagináveis, porque eu preciso manter essa obsessão, eu preciso continuar pesquisando para satisfazer meu cérebro. Eu preciso ter esses pensamentos, eles são como uma substância química e eu a abstinente. 

O medo de adoecer bateu à minha porta pela primeira vez quando eu era muito pequena, após uma palestra sobre higiene bucal. Eu não dormia achando que meus dentes iriam todos cair. Às vezes ainda sonho que eles caem. 

Acontece que não é uma coisa que exige somente autocontrole, é algo que vai além do que nós podemos fazer.

Ser ansioso é um eterno masoquismo. É ver seu corpo necessitando aquilo que te prejudica. Não preciso sair, não preciso me distrair, não preciso mudar de emprego, não preeciso mudar de ares. Não é nenhum fator externo que vai mudar o que sinto. Eu não preciso de ninguém me dizendo que tenho que fazer isso ou aquilo. O que eu tenho para resolver é comigo mesma, nenhum pseudo-psicólogo (e até mesmo os psicólogos) pode me dizer. 

Como diria Oscar Wilde: No mundo, há somente duas tragédias. Uma é não ter o que se quer e a outra é ter.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Amostra não reagente



Olá, terráqueos!

Como havia dito anteriormente, fui à ginecologista. Ela pediu um milhão de exames, o que já me deixa tensa, porque, muitos deles, eu julguei desnecessários na hora. Mas, depois que fui fazer, fiquei pensando mil coisas. Da última vez que fui ao Endócrino, ele também pediu tudo quanto é exame de hormônio, que me fez questionar se eu tinha problemas na tireoide, se eu tinha bócio ou qualquer distúrbio provocado pela ausência de vitamina D (incluindo esclerose múltipla). Pois bem, quando você solicita ao seu médico "exames de rotina", ele entende que deve examinar tudo que diz respeito à sua área. No caso da ginecologista, ela pediu exames de sangue de tudo quanto é DST, incluindo HIV (teste que já fiz algumas vezes antes de cirurgias – já operei o nariz, depois conto aqui) e tinha dado negativo. 
Porém, com essa lista imensa de exames para fazer, começo a pensar: "pelo menos uma dessas coisas eu devo ter, não é possível". Foi aquele procedimento padrão, peguei a senha da internet após o exame do laboratório e cheguei em casa correndo ver o resultado. Lógico que não estaria pronto. Mas fiquei entrando no site até os resultados saírem aos poucos: HIV, Hepatite B e C, Sífilis etc. todos deram negativo "Não Reagente". Não era possível ter uma dessas doenças, mas eu fiquei questionando as agulhas que me furaram no último ano (e foram muitas, principalmente durante os meus surtos ano passado) e até a pinça que usaram para tirar minha sobrancelha, os alicates que usaram para fazer minhas unhas, enfim, uma infinidade de coisas. 
Vejam como é a cabeça de um ansioso, fui dormir pensando "Posso ter HIV"? Posso ter HIV? Quão absurdo isso soa? Eu não pego nem gripe. Há anos. Mas a ansiedade nos faz pensar coisas que nem nós mesmos entendemos. 

Eu tenho mais exames para fazer amanhã, entre eles ultrassom. Sempre acho que vão encontrar um monstro escondido dentro de mim em um desses exames. Uma doença rara incurável. Qualquer coisa (desde que seja bem ruim). Por mais que eu esteja medicada, me alimentando bem, tentando dormir na medida do possível, ainda fico atormentada com a ansiedade.

A ansiedade nos faz pensar em coisas horríveis, nos faz cavar até o fundo do poço, com a consciência de que sim, estamos cavando mais e mais. É como uma droga, preciso desses pensamentos, preciso dessa obsessão, não posso ficar em paz, porque, se eu ficar em paz e tiver alguma coisa, nunca irei me perdoar. Não posso deixar tudo de lado, cada sintoma – porque cada sintoma é real – e simplesmente seguir com a minha vida. E se um sintoma mínimo, como um soluço, um tremor nas pálpebras, um espasmo, uma pontada, uma leve dor for um daqueles casos que saem no Discovery Channel, de doenças raras que os médicos não conseguiam encontrar em exames de rotina? E se... Os pensamentos nos consomem. Ansiosos são esponjas para negatividade, doenças, tragédias.

Mas sabe como é, né? Um dia após o outro. Com calma. Calma? Parece até piada pedir calma a um ansioso. Hoje senti dor nas costas. Já pesquisei de pulmão a rins. De útero a medula espinhal. Estou virando uma especialista? Talvez especialista em coisas inúteis que atrasam a minha evolução mental.

Queria, ao menos uma vez, me desvencilhar desses pensamentos autodestrutivos, mas eles são tão viciantes quanto o crack. Com a desvantagem de que o crack é necessário algum esforço para conseguir. Sair de casa, gastar dinheiro, perambular pela crackolândia. A ansiedade é gratuita. E não é necessário que movamos um só dedo para que apareça. Afeta nosso sistema nervoso central. Afeta músculos, cabeça, órgãos, alimentação, sono. A reabilitação nunca é definitiva e para ter uma recaída basta pensar.

Risco um fósforo. Está escuro aqui embaixo. Parece uma fase complexa do videogame, na qual tentamos subir e as armadilhas aparecem para nos derrubar e, com isso, vamos perdendo vida. Pouco a pouco, a cada tentativa.

sábado, 14 de maio de 2016

Desespero


Uns dias são piores que outros. Nós sabemos que a nossa mente nos prega peças. Nós estamos conscientes de que aumentamos as coisas, que somos ansiosos. Mas, mesmo assim, como já disse anteriormente: não é suficiente apenas saber que somos ansiosos. Lógico que nós sabemos. Mas mesmo assim continuamos encontrando diversas causas para todas as nossas reações desproporcionais. Uma mancha na pele é uma doença sem cura. Uma tosse é estado terminal. 

"Mas você precisa aprender a se controlar!" dizem.

Ora essa, se todos que sofrem de ansiedade soubessem se controlar, coitada da indústria farmacêutica. Dos psiquiatras. E, nossa, que maravilha seria para nós, os protagonistas dessa história toda. Se fosse simples assim, a autora ansiosa desse blog que vos fala sequer teria pensado em criá-lo. 

Desespero. Você luta contra ele. Você quer pensar em outra coisa. Você quer fugir dos seus pensamentos, mas eles são obsessivos. Eles são compulsivos. E você não consegue se desvencilhar. Você sente uma inexplicável vontade de continuar pensando a mesma coisa, é algo autodestrutivo. Você sabe que isso te faz mal, mas você insiste. Insiste porque todo o seu momento depende disso: agarrar-se a esse desespero até chegar ao limite do seu cansaço, ao clímax da ansiedade. 

Com o tempo e o tratamento certo, isso passa a ser mais raro. No entanto, quando ocorre, é como uma avalanche desavisada. Você fica destruído por dentro, não consegue enxergar, respirar, andar, fazer nada além de dedicar-se a essa obsessão. Pudera. É isso que alimenta a ansiedade. E a ansiedade é o que te alimenta.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

A Persistência da Memória





Como bem ilustrou Salvador Dali, nós somos uma mera distração do tempo, um brinquedo das horas. E, quanto mais insistimos em desafiá-lo, mais perdemos tempo. Quando queremos que o tempo passe logo, ele é um conta-gotas. Quando queremos o oposto, sequer há tempo para notar que passou. 

Mas o tempo é um inimigo do ansioso. Porque o ansioso, ao mesmo tempo que não tem paciência nenhuma, quer que tudo seja para ontem, ele quer que o tempo fique estagnado, para que não tenha que lidar com os problemas que podem surgir. Essa contradição faz parte da ansiedade e da depressão. Ao mesmo tempo que não há gosto pela vida, há um medo obsessivo da morte. 

Insistimos nos mesmos pensamentos, nas mesmas coisas que nos atormentam. Pensar, repensar, lembrar e relembrar são coisas feitas incessantemente pelos ansiosos. Pensar essas coisas que pioram nossa situação é como um alimento ao cérebro, ele pede isso e, se não o alimentamos, parece que falta uma parte de tortura diária à qual nos submetemos grande parte da nossa vida. O corpo pede essa tortura, como se esses pensamentos repetidos fossem uma parte essencial do cérebro, que não consegue funcionar se algumas coisas não forem feitas ou pensadas, ainda que sejam prejudiciais.

A ansiedade é uma droga mais forte do que qualquer ansiolítico. O ansiolítico mexe com a serotonina, com os nervos, estômago, com a nossa percepção, é fato. Mas e a ansiedade faz o quê? Tudo isso sem precisar de um único comprimido. E é mais viciante do que qualquer benzodiazepínico. Porque, muito embora nos faça mal, não conseguimos nos desvencilhar.

Estar ansioso é como colocar os dois pés em uma areia movediça e, à medida que está afundando e tenta voltar ao topo, sente um mórbido prazer em se afundar mais e sentir a lama cobrindo os pés, o corpo e, muito em breve, a cabeça.

Por isso, não basta unicamente estar ciente de que se é ansioso. Porque a ansiedade é um vício. Ela nos toma por completo e controla todas as nossas ações. Ela existe e persiste, como o tempo. É algo que achamos que controlamos, mas não poderíamos estar mais enganados, não é mesmo?

Estar ciente é o primeiro passo. O segundo é fazer algo a respeito. Psicólogo? Terapeuta? Psiquiatra? Todos eles? Quem sabe, o que ajudar melhor. O que não pode é ceder ao vício da ansiedade. Parar de tomar o remédio antes de melhorar, ceder à ansiedade e não à voz do Psicólogo, apegar-se a essa substância viciante obsessiva, agarrar-se à areia que cobre seu corpo, em vez de buscar a superfície. 

A ansiedade nos domina não só porque é algo sobre o qual não temos controle. Ela é algo sobre o qual não temos controle porque está dentro de nós e nós nos apegamos a ela, nós necessitamos dela, nós fazemos dela parte essencial, nós damos a atenção que não merece.

Para emergir não é necessário apenas consciência. É necessário consciência em movimento. Eu sei que tenho que subir. Eu sei que tenho que subir e vou fazer algo a respeito: vou subir, mas sem olhar para baixo.


segunda-feira, 28 de março de 2016

Ansiedade, ansiedade, ansiedade...


Aqui estou mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia...

Essa noite acordei sufocada. Com muita falta de ar, achei que iria morrer. "Não tô conseguindo respirar", pensei comigo. E fiquei virando de um lado a outro da cama. Comecei a pensar em outras coisas aleatórias, minha respiração foi se acalmando e aos poucos eu consegui voltar a dormir. Ansiedade. Tenho uma coleção de "chapas" do pulmão aqui. Dá para fazer barulho de trovão em peça nos próximos 200 anos. 

Aí vêm as perguntas de pessoas que, obviamente, não veem a ansiedade como um transtorno.

"Mas, Natália, existe algum motivo específico que gere tanta ansiedade?"

Se existisse um motivo e todo mundo descobrisse, para quê psiquiatria? A verdade é que não tem um motivo sólido, às vezes algum motivo piora as crises, mas no geral, são pequenos motivos juntos e às vezes não tem nada que esteja incomodando a gente genuinamente.

"Mas, se não tem motivo, é só você se distrair que passa!"

Não necessariamente. O x da questão é exatamente esse. Não é simples pensar em outras coisas, distrair, desligar. Às vezes os sintomas chegam sem que estejamos em momentos de tensão, somos pegos de surpresa, como no meio da noite. Como já estou bem treinada, eu às vezes consigo me controlar – mas também estou medicada com a dose máxima de escitalopram e buspirona, o que francamente ajuda.

"Mas você já tomou chá de Camomila?"

Nem vou responder.

"Mas você já tentou calmante natural?"

...

É por causa dessa banalização dos transtornos psiquiátricos, que são tratados como momentâneos ou como "frescura" que as pessoas que sofrem de ansiedade acabam piorando, mergulhadas em dúvidas como "Mas se é tão simples, por que não consigo sair desse lugar?". 

Primeiro: Não é simples. A primeira consciência é essa. O que em partes me tranquiliza, como hipocondríaca diagnosticada e portadora de TOC, pelo menos não tenho nenhuma doença física terminal. Mas que em partes me aflige, porque eu fico sem saber quando esse pesadelo termina. Tem dias que não sinto nada. Tem dias que desde cedo aparecem as pontadas no corpo, falta de ar, visão turva. "Não estou enxergando hoje" penso. E a nossa mente é tão traiçoeira, que, mesmo enxergando, estando consciente de que estou vendo, eu continuo achando que não estou enxergando.

Compreendem? 

Não é uma neura. É um pensamento fixo obsessivo que simplesmente não vai embora.

Ter ansiedade é como perder as forças para as coisas, estar no fundo de um poço escuro cuja escada aparece e desaparece sem que você tenha chance de subir. Como se seu corpo estivesse preso sem que você consiga se mexer. Assim como acontece na paralisia do sono. Você grita, a voz não sai, você tenta correr, as pernas não andam. Você fecha os olhos desejando que seja um sonho. 

Mas tem horas que não é.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Depressão não é "frescura"


Muitas pessoas tratam as patologias psiquiátricas e psicológicas como "frescura". Mas, claro, para elas, algo que não aparenta ser físico só pode ser uma invenção da cabeça.

Mas não é bem assim.

Depressão não é "frescura". Não é uma tristeza momentânea por um determinado acontecimento. Não é aquele vazio que normalmente sentimos em finais de tarde, a preguiça de levantar cedo na segunda-feira ou a falta de dinheiro no final do mês. A depressão não tem necessariamente uma causa específica, pode ser agravada por acontecimentos, palavras e até pelo descaso das outras pessoas, mas esses fatores podem ou não ser determinantes e isso varia de pessoa para pessoa. A depressão não atinge só quem passa por momentos de dificuldade financeira, morte de entes queridos, animais, decepções amorosas ou no trabalho, como todo mundo pensa que é. A depressão pode atingir qualquer pessoa e não precisa existir um motivo concreto. Assim como diversas doenças.

Portanto, para você que não tem depressão, vai aqui uma lista de coisas que você precisa saber.

1. A depressão não é algo que pode ser controlado por vontade própria

Não adianta falar para alguém que tem depressão que ela deve "pensar positivo", "parar de ser triste", "sair e se distrair". A depressão é um lugar escuro. E a luz está longe de ser alguma dessas frases prontas que se diz a alguém que terminou com o namorado ou perdeu o emprego. Tome muito cuidado com as palavras.

2. A depressão atinge qualquer faixa etária ou classe social

Não é porque a pessoa tem uma vida aparentemente "boa" que ela está livre de ter depressão. Primeiro, porque sabemos que a visão que temos da vida alheia é bem diferente do que ela realmente é. Segundo, porque problemas são subjetivos, somente quem passa por eles sabe a dimensão. Então não faça comparações esdrúxulas, como: "Tantas crianças passando fome na África e você que tem o que comer não levanta da cama", "Veja, ela não tem um braço e é feliz. Você com os dois fica nessa depressão". Isso é um retrocesso para a pessoa que está em depressão, em vez de ajudá-la, você pode até prejudicar e fazê-la regredir no tratamento.

3. Não se deve minimizar a dor de quem tem depressão

Complementando o tópico anterior, tratar a depressão como algo que 1. pode ser controlado; 2. sem importância, pois crianças na África têm fome; 3. que tem uma causa específica e a pessoa está exagerando é algo que pode prejudicar quem passa por esse processo. A pessoa, que não consegue entender por que está naquele lugar, começa a achar que nunca sairá de lá, pois ela mesma não compreende o que a levou até lá e se as pessoas à sua volta não conseguem compreender o mínimo, ela sentirá que está sozinha, isolando-se ainda mais de tudo.

4. A depressão não tem uma causa específica, mas pode ter agravantes

A pessoa pode estar em depressão por diversas causas, conjuntas, por uma causa específica, por um assunto mal terminado ou simplesmente sem nenhuma causa. Por isso, é imprescindível que quem deseja ajudar quem está deprimido saiba algumas coisas:

a.) não se deve julgar quem está em depressão (principalmente minimizando a dor e fazendo comparações esdrúxulas).
b.) deve-se evitar dar conselhos, conselhos só vão atrapalhar e fazer com que a pessoa se sinta ainda mais sozinha.
c.) não meça ninguém com a própria régua, se alguém com depressão pode não conseguir compreender outra pessoa no mesmo estado, você, que não se encontra nesse estado, pode, menos ainda, compreender a dor do outro. Apenas respeite.
d.) não empurre religião em alguém que não tem costume de ser religioso. Se a pessoa está aberta a isso, tudo bem fazer orações. Mas se a pessoa não tem esse costume, tentar empurrar rezas goela abaixo só vai fazer com que ela se sinta pior ainda, primeiro por não conseguir melhorar efetivamente com isso, segundo por não se sentir bem e terceiro porque cada ser é distinto do outro, então respeite a escolha de cada um. Falar em Deus não ajuda quem não quer ouvir, é um conceito básico.

5. Coisas que podem ser feitas para ajudar alguém próximo com depressão

a.) Ser paciente. Tenha paciência. Vão existira altos e baixos, dias ruins e dias ruins e, quem sabe, dias melhores. Mas nenhum deles será regra, não é algo que se pode prever. Então, tenha cautela e muita paciência.
b.) Estar presente. Mostrar-se presente, com gestos e atitudes, não apenas com palavras. As palavras entram e saem pelo ouvido de quem tem depressão e, acredite, alguém com depressão pode transformar qualquer conselho em algo ruim. Trata-se de algo intrínseco, que distorce a visão externa.
c.) Ouvir mais do que falar. Muitas vezes, as pessoas querem tentar expor o que sentem, mas têm vergonha ou receio de julgamentos precipitados, discursos prontos de como elas deveriam sair e distrair, ver coisas alegres, acreditar em Deus etc. Cansadas das mesmas coisas, acabam se isolando e se calando.
d.) Respeitar a dor alheia. Respeito é bom e todo mundo gosta. Cada um tem seu infinito particular, seu pedaço de mundo. Por isso, é importante não invadir esse espaço. Se a pessoa quiser falar, ouça. Se não quiser, não insista a ponto de piorar as coisas.
e.) Perguntar se está tudo bem ou se a pessoa precisa de algo. Tentar ajudar de uma forma honesta, sem precipitações, vendo primeiro o que a pessoa quer antes de qualquer coisa.
f.) Aprender sobre a depressão. Ler e procurar saber sobre antes de soltar qualquer frase pronta, clichê e absurdos do senso comum que só fazem piorar o estado de quem está depressivo.

6. Não banalize o transtorno

Muitas pessoas banalizam os transtornos, como se fossem estados de humor que podem ser mudados com um sorvete de chocolate. "Ai, hoje tô deprê", "Eu sou muito bipolar, de manhã tô brava e de tarde tô alegre", "Eu tenho TOC com isso".

BIPOLAR é um tipo de transtorno. É um transtorno GRAVE. Não é porque você tem modificações do seu humor mimado que você é bipolar. Se você tá bravinha de manhã e feliz à tarde não significa que você tem um transtorno. Seja responsável e não transforme a dor do outro em mais uma futilidade sua.

DEPRESSÃO é um transtorno. Não é porque você tá triste porque sua série foi cancelada que você está "deprê". Depressão tem tratamento e só é tratada como frescura por conta de banalizações como essa.

TRANSTORNO OBSESSIVO COMPULSIVO (TOC) atrapalha a vida de muitas pessoas. Não é porque você gosta de linhas simétricas que você tem TOC. TOC precisa de tratamento, acompanhamento e é um TRANSTORNO, não uma brincadeira da internet.

Ficou claro?

DEPRESSÃO NÃO É FRESCURA.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

A preocupação excessiva e a distorção da realidade

A ansiedade nada mais é do que uma preocupação excessiva. Quando nos PREocupamos com algo, estamos antecipando problemas que podem ou não acontecer, mas que só poderíamos resolver se fossem concretos, ou seja: ocupando-nos deles e não nos preocupando com. Apesar de tudo isso, é muito difícil deixar as preocupações de lado, principalmente para quem é ansioso. Contudo, quando as preocupações são excessivas e estão tomando conta da sua vida pessoal, do seu trabalho, tirando seu sono e sua concentração: é hora de buscar ajuda profissional. Está com os exames em dia? Se não, faça-os. Não houve nenhuma alteração significativa? Então o mais correto é buscar ajuda de um psicólogo, um terapeuta ou um psiquiatra – e até de uma terapia conjunta, que envolva medicamento e sessões. 
Nosso corpo nos manda sinais de que há algo errado, mas muitas vezes, receber esses sinais não significa que tenhamos alguma doença física específica, mas, algum processo mental ocorre. Quando estamos ansiosos, ficamos alerta o tempo todo. A mãe que se preocupa com o filho é uma mãe normal. Já a mãe que tem uma preocupação obsessiva, precisa de ajuda. Preocupar-se com a saúde é normal. Ficar obcecado por doenças é sinal de que algo não vai bem. 
Quando fui ao neurologista, pensando ter alguma doença autoimune ou degenerativa, e expliquei o que eu sentia ao médico, ele logo descartou qualquer doença e disse algo que me fez pensar: "A ansiedade nos faz ter consciência de tudo que ocorre no nosso corpo e isso é um problema. Por exemplo, se ficarmos prestando atenção na nossa respiração, ela vai acabar ficando forçada ou irregular em algum momento. Se prestarmos atenção na maneira como nos locomovemos, começaremos a sentir algo estranho nas pernas. Assim como a visão e demais sentidos do corpo humano". E essa, amigos ansiosos, é uma verdade absoluta. Desde que tive os primeiros sinais de que a ansiedade havia passado dos limites, comecei a prestar atenção excessiva em cada sinal do meu corpo. Tato, visão, respiração. Não estava enxergando direito, não estava respirando, tinha a sensação que havia desaprendido a andar. Que minha perna esquerda estava pior que a direita, puxando, como se estivesse endurecendo. Mas eu conseguia fazer todos os exercícios na academia sem nenhum esforço. Ué? Então qual a explicação para o fenômeno da perna, que só ocorria quando eu estava andando sozinha e pensando na morte da bezerra? Aí é que está: o problema estava na minha cabeça. 
A ansiedade gera o medo. Medo das mais diversas coisas. Esse medo distorce a realidade. Assim como eu distorci pensando ter alguma doença grave, as pessoas distorcem pelos mais diversos motivos. Algumas pessoas ficam excessivamente preocupadas de que algo vá acontecer com elas caso saiam de casa. Um atropelamento. Um assalto. Um estupro. Um mal súbito sem ninguém para socorrer. E os mais diversos pensamentos alimentados pelo medo. Outras têm preocupação excessiva com entes familiares. Não conseguem dormir à noite pensando que vão perder as pessoas que amam, que se saírem de casa vão ser assaltadas, mortas, desaparecer. O excesso de preocupação transforma a realidade aumentando de maneira progressiva as possibilidades das coisas ocorrerem. Coisas que têm estatística de 0,01% passam a ser prováveis. 
Eu também tinha medo de sair de casa. Passava longe dos carros estacionados, temendo que alguém estivesse dentro deles e me sequestrasse. Medo exacerbado é diferente de cautela. Cautela é tomar cuidado, ter medo é sentir-se apavorado em situações comuns do dia a dia. É preciso saber essa diferença.
A preocupação esdrúxula nos leva ao nosso limite. Tirando nossa paz, nosso sossego, nossas noites de sono e até as tarefas simples que realizamos normalmente. Diria que é uma hiperconsciência, um aumento mórbido de sensações, o nosso alerta máximo a qualquer mínima coisa diferente, uma desconfiança constante. 

Por isso, não tenha vergonha de assumir para si mesmo que se sente assim. Não tenha medo de cogitar essa possibilidade. Não tenha receio de buscar qualquer tipo de ajuda. Nós é que devemos tomar conta das preocupações, na verdade, ocupando-nos dos reais problemas e não nos preocupando com problemas inexistentes ou potenciais, deixando que a preocupação nos tome. Morrendo, sempre, na véspera, sem viver os momentos em seu tempo certo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

O retorno ao Psiquiatra

Eu já tinha ido duas vezes ao psiquiatra. Na segunda vez, foi porque me desesperei com os efeitos colaterais do remédio e achava que iria morrer. 

Não morri.

E hoje fez um mês de escitalopram e buspirona. Fiquei o dia inteiro apreensiva. Vai que eu chego lá e tem uma camisa de força me esperando. Ou que eu sou atropelada no caminho. Ou roubam minha bolsa. Ou pior: eu tenho um colapso e morro na calçada com meu celular destravado.

Esses pensamentos maravilhosos de quem é ansioso. E pessimista.

Cheguei lá, tinha um paciente na portaria do prédio que ia para o mesmo andar. Quando falei o nome do médico, ele virou e disse "Você também é bancária? Ele atende muito bancários que ficaram loucos."

Quê? Já me deu um calafrio. Respondi: "Não sou não". "É professora, então?" É tão óbvio assim?
Respondi que era só revisora. Céus, dez andares intermináveis.

Cheguei lá, consultório vazio. Será que eu teria que ficar na sala com aquele bancário (sei lá) estranho que não calava a boca? 

Ele assinou a ficha e logo foi chamado. Eu, distraída, assinei no lugar errado para variar. Só para variar.

Entrei apreensiva esperando o pior. Só de olhar para a minha cara ele poderia decretar uma sentença de morte ou sei lá. O fato é que do caminho do trabalho até o consultório, que não dá meia hora, eu pensei em tudo isso e mais um pouco.

"E aí, dona Natália?" Gelei. Respondi que estava melhor, mas que ainda tinha alguns sintomas. Ele brincou. Fez umas perguntas, conversou um pouco. Fiquei mais calma. Receitou remédio para mais dois meses.

Estou visivelmente melhor, mas ainda bate o desespero, a ansiedade, os pensamentos compulsivos pessimistas que não vão embora. Já tem dias que não pesquiso doenças. E nem sinto vontade. O remédio me ajudou bastante, a não ficar ansiosa 24 horas por dia, por exemplo. Mas algumas situações ainda me levam ao extremo.

É um caminho longo. Mas não tenho outra escolha senão percorrê-lo. 

"Tá tomando remédio de louco, é?" Disseram. 

Achei de mau gosto. Mas respondi que sim.

Ser normal é muito chato.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Boas vindas da ansiosa criadora deste blog :)

Meu nome é Natália, sou revisora, trabalho em horário comercial, levo muitos freelas para casa e adoro o que faço. 

Criei este blog no intuito de ajudar pessoas que sofrem dos mais diversos transtornos e, principalmente, ansiedade. Ia fazer um post de introdução, mas preferi começar com um relato.
Eu estou em processo de adaptação do meu remédio, ainda, que tomo há 3 semanas. Em vista do jeito que estava, agora estou bem melhor.

Meu primeiro sintoma foi a falta de ar. Já tinha tido diversos episódios de falta de ar, acompanhada de uma "tontura flutuante". Cheguei a fazer teste para labirintite, foi constatada hiperinsulinemia. Mas, com essa constatação, o fato de que eu só deveria me sentir dessa forma caso estivesse com a glicose baixa, o que não era o caso. Eu me sentia assim o tempo todo e a glicose estava normal na maior parte do tempo.
Depois da falta de ar, veio a visão turva. Parecia que eu não enxergava. Mas só que eu enxergava, era uma impressão de estar em outro plano, diferente do das pessoas ao meu redor.
Como estava tomando isotretinoína na época, muita dor nas pernas, que melhorou com o tempo. Mas, como eu estava viciada em buscar sintomas, qualquer dor que eu sentia, era uma terrível constatação.
Estava certa de que tinha alguma doença grave incurável. 
Depois de tanto procurar sintomas, comecei a ter os mais diversos. Pontadas por todo o corpo, o dia todo. Moscas volantes, ah as malditas moscas volantes! Pontinhos flutuando pelos olhos, principalmente o esquerdo. Coincidentemente, o olho que eu achava que estava enxergando menos.
Ferrou. Idas a hospitais e médicos. Exame de fundo de olho. Mapeamento de retina: nada. Dor no peito. Eletrocardiograma, raio-X: nada. Hemograma: nada. Exames hormonais, do fígado, pâncreas, tireoide, doenças infecciosas. Exames para detectar coágulos, doenças autoimunes: nada. Colesterol? Excelente.
Os médicos diziam "Esses sintomas não se encaixam em nenhuma doença, porque são muito diversos". E eu pensava: e se eu tiver ansiedade E A DOENÇA?
Mais horas em frente ao computador pesquisando, pesquisando, pesquisando. Phd em neuro, cardio e oncologia. 
Depois de relutar e perder a essência de viver, achando que, se dormisse, não mais acordaria, decidi ir ao Psiquiatra. O decreto foi: transtorno de ansiedade generalizada e transtorno obsessivo compulsivo. E a pena: 15mg de escitalopram, 15mg de buspirona e, ocasionalmente, 5mg de diazepam (o Valium). 
O começo foi horrível. Os sintomas pioraram. Crises de pânico.
E sabe o que é pior? As pessoas me dizendo "Você tem que se distrair", "Você tem que não pensar nisso", "Você tem que sair para esfriar a cabeça, fazer algo que você goste". Não me entendam mal, sei que querem ajudar: mas se isso está fora do MEU alcance, quem dirá do de vocês? Não existe palavra possível que possa nos arrancar essa angústia, esse gosto amargo na boca, essa preocupação excessiva.
Os passos são pequenos. A cada coisa que acho no meu corpo, penso ainda estar sofrendo de alguma doença. Manchas roxas, quando minhas pernas doem, desconsiderando que pego muito peso na academia sem esforço, eu ainda acho que existe um motivo diferente, que não este, ou o cansaço (porque não paro 24h) para uma dorzinha. 
Mas, estou caminhando para frente. Já consigo passar parte do dia sem pesquisar nada. Já cheguei a ficar 5 horas seguidas pesquisando e lendo sintomas e, como se não bastasse revirar todo o Google em Português, comecei também a pesquisar em Inglês. 

Tenho muitos relatos sobre mim, sobre minha infância, meus traumas (e a ausência deles). Mas vou aos poucos. Primeiro quero dar boas vindas a todos. Esse espaço é para todo mundo e espero que todos aproveitem. Espero também conseguir ajudar, na medida do possível, aqueles que passaram e passam por situações semelhantes. 

Bem-vindos.