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segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Amostra não reagente



Olá, terráqueos!

Como havia dito anteriormente, fui à ginecologista. Ela pediu um milhão de exames, o que já me deixa tensa, porque, muitos deles, eu julguei desnecessários na hora. Mas, depois que fui fazer, fiquei pensando mil coisas. Da última vez que fui ao Endócrino, ele também pediu tudo quanto é exame de hormônio, que me fez questionar se eu tinha problemas na tireoide, se eu tinha bócio ou qualquer distúrbio provocado pela ausência de vitamina D (incluindo esclerose múltipla). Pois bem, quando você solicita ao seu médico "exames de rotina", ele entende que deve examinar tudo que diz respeito à sua área. No caso da ginecologista, ela pediu exames de sangue de tudo quanto é DST, incluindo HIV (teste que já fiz algumas vezes antes de cirurgias – já operei o nariz, depois conto aqui) e tinha dado negativo. 
Porém, com essa lista imensa de exames para fazer, começo a pensar: "pelo menos uma dessas coisas eu devo ter, não é possível". Foi aquele procedimento padrão, peguei a senha da internet após o exame do laboratório e cheguei em casa correndo ver o resultado. Lógico que não estaria pronto. Mas fiquei entrando no site até os resultados saírem aos poucos: HIV, Hepatite B e C, Sífilis etc. todos deram negativo "Não Reagente". Não era possível ter uma dessas doenças, mas eu fiquei questionando as agulhas que me furaram no último ano (e foram muitas, principalmente durante os meus surtos ano passado) e até a pinça que usaram para tirar minha sobrancelha, os alicates que usaram para fazer minhas unhas, enfim, uma infinidade de coisas. 
Vejam como é a cabeça de um ansioso, fui dormir pensando "Posso ter HIV"? Posso ter HIV? Quão absurdo isso soa? Eu não pego nem gripe. Há anos. Mas a ansiedade nos faz pensar coisas que nem nós mesmos entendemos. 

Eu tenho mais exames para fazer amanhã, entre eles ultrassom. Sempre acho que vão encontrar um monstro escondido dentro de mim em um desses exames. Uma doença rara incurável. Qualquer coisa (desde que seja bem ruim). Por mais que eu esteja medicada, me alimentando bem, tentando dormir na medida do possível, ainda fico atormentada com a ansiedade.

A ansiedade nos faz pensar em coisas horríveis, nos faz cavar até o fundo do poço, com a consciência de que sim, estamos cavando mais e mais. É como uma droga, preciso desses pensamentos, preciso dessa obsessão, não posso ficar em paz, porque, se eu ficar em paz e tiver alguma coisa, nunca irei me perdoar. Não posso deixar tudo de lado, cada sintoma – porque cada sintoma é real – e simplesmente seguir com a minha vida. E se um sintoma mínimo, como um soluço, um tremor nas pálpebras, um espasmo, uma pontada, uma leve dor for um daqueles casos que saem no Discovery Channel, de doenças raras que os médicos não conseguiam encontrar em exames de rotina? E se... Os pensamentos nos consomem. Ansiosos são esponjas para negatividade, doenças, tragédias.

Mas sabe como é, né? Um dia após o outro. Com calma. Calma? Parece até piada pedir calma a um ansioso. Hoje senti dor nas costas. Já pesquisei de pulmão a rins. De útero a medula espinhal. Estou virando uma especialista? Talvez especialista em coisas inúteis que atrasam a minha evolução mental.

Queria, ao menos uma vez, me desvencilhar desses pensamentos autodestrutivos, mas eles são tão viciantes quanto o crack. Com a desvantagem de que o crack é necessário algum esforço para conseguir. Sair de casa, gastar dinheiro, perambular pela crackolândia. A ansiedade é gratuita. E não é necessário que movamos um só dedo para que apareça. Afeta nosso sistema nervoso central. Afeta músculos, cabeça, órgãos, alimentação, sono. A reabilitação nunca é definitiva e para ter uma recaída basta pensar.

Risco um fósforo. Está escuro aqui embaixo. Parece uma fase complexa do videogame, na qual tentamos subir e as armadilhas aparecem para nos derrubar e, com isso, vamos perdendo vida. Pouco a pouco, a cada tentativa.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Ansiedade e AVC imaginário




Antigamente, eu achava que iria infartar. Achava que morreria dormindo ou estaria andando pela rua e puf, iria cair dura infartando. Bom, isso não aconteceu e, como não aconteceu, eu fui me acalmando e minhas dores no peito sumiram.
Mas, como nem tudo são flores e, depois de ter esclerose múltipla, esclerose lateral amiotrófica, insuficiência respiratória, lúpus, bócio, uveíte, distúrbio na tireoide, tumor maligno no cérebro, leucemia e câncer de mama, a doença da vez é o AVC. Na verdade, o AVC é a doença número 1, depois do câncer (tudo é câncer).
Já estava encafifada com minhas pálpebras tremendo. Elas decidiram reduzir o ritmo, eu estava mais satisfeita, então fui dormir com um pouco de dor de cabeça. Mas dor de cabeça é normal, ainda mais quando não é tão forte, todo mundo tem. Bom, eu sequer tenho dores de cabeça. É raro, na verdade, eu pegar até gripe. Eu não tenho uma gripe forte há anos. Mas, né, caso eu tenha, com certeza na minha cabeça será H1N1.
Bom, voltando ao AVC, a dor não passou, acordei de manhã com dor de cabeça ainda. Pronto. Era AVC. Só poderia ser AVC. Sentei na cama e fiz os movimentos obrigatórios, levantei e abaixei os braços, testei as pernas, olhei no espelho e mexi a boca, tava tudo ali, nada torto, nada paralisado. Subi a rua para o metrô, senti a perna repuxar. É hoje, pensei. Tomei uma dipirona, a dor melhorou. Mas aí meu braço direito começou a formigar, fazia sentido, dor no lado esquerdo da cabeça e braço direito formigando, tudo fazia sentido!
Foi quando a minha querida auxiliar, que só chega à tarde, apareceu e fui me acalmando, me distraindo e puf, assim como veio, sumiu.

Sabe aquele filme do Hitchcock "Vertigo"? Pois é. Eu sinto como se tivesse um medo terrível de altura, mas não conseguisse nem enfrentar o medo e subir as escadas e nem olhar para baixo.

A ansiedade faz com que busquemos respostas incessantemente, mas algumas respostas são internas e só podemos respondê-las quando conseguirmos nos enfrentar e praticar o autoconhecimento.

Nós procuramos no Google, mas ele mesmo não tem as respostas. O Google é uma forma de sossegar aquela obsessão com qualquer doença que muito improvavelmente não temos, mas que não conseguimos nos desvencilhar, desligar o pensamento.

Não era uveíte, era olho seco. Não era esclerose, era ansiedade. Não era infarto, era pânico. Não era AVC, era uma noite mal dormida.

Mas vai dizer isso pra nossa cabeça? Ela não entende não.